Vamos falar de desperdício de alimentos? No Brasil, arroz, carne e feijão são líderes nesse ranking, reporta Flavio Maluf

Arroz, carne bovina, feijão e frango são os alimentos mais desperdiçados pelos brasileiros, segundo uma pesquisa sobre hábitos de consumo e desperdício de alimentos, do projeto Diálogos Setoriais União Europeia – Brasil. Tal projeto é liderado pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), em parceria com a Fundação Getulio Vargas (FGV). O levantamento foi apresentado no último dia 20 de setembro, no Seminário Internacional Perdas e Desperdício de Alimentos em Cadeias Agroalimentares: Oportunidades para Políticas Públicas, na sede da Embrapa, em Brasília (DF). Quem traz mais informações sobre o assunto é o presidente das empresas Eucatex, o empresário e executivo Flavio Maluf.

 

Conforme o estudo, o arroz, a carne bovina, o feijão e o frango ocupam 73% do total de alimentos desperdiçados no Brasil. Separados, eles representam, respectivamente, 22%, 20%, 16% e 15% de toda a comida que é jogada fora.

“A família brasileira desperdiça, em quantidade relativamente grande”, ressaltou o professor de marketing da Escola de Administração de Empresas de São Paulo, da FGV, Carlos Eduardo Lourenço. “A grande surpresa foram as carnes aparecerem com um índice tão alto de desperdício, um produto de alto valor agregado, de alto valor nutricional e que é desperdiçado. E destaco ainda o leite, que é o quinto grande grupo mais jogado fora”, acrescentou ele.

Flavio Maluf reporta que a média de alimentos desperdiçados por domicílio brasileiro chega a 353 gramas, diariamente. Já a média por pessoa é de 114 gramas por dia. Conforme os pesquisadores responsáveis pelo estudo, entre os motivos de tanto desperdício, estão: a busca pelo sabor, a cultura da abundância, e o não aproveitamento das sobras das refeições.

Conforme os resultados do levantamento da Embrapa, 61% das famílias dá prioridade a uma grande compra mensal de alimentos, além de duas a quatro compras menores ao longo do mês. E é esse hábito, segundo os pesquisadores, que leva ao desperdício. Isso porque a prática aumenta a propensão de comprar itens desnecessários — principalmente se não houver o planejamento das refeições.

Contradições

Um percentual que chega a 94% dos pesquisados disse considerar importante evitar o desperdício de comida, entretanto, 59% do mesmo público não se importa em ter comida em abundância na mesa ou na despensa. Ainda, 68% das famílias valoriza o fato de ter uma despensa e geladeira cheias de comida, pontua Flavio Maluf. “O brasileiro gosta de abundância, é muito comum na nossa cultura”, acentuou Carlos Eduardo Lourenço.

O que fazer?

De acordo com o ministro do Meio Ambiente, Edson Duarte, é preciso uma atuação em todos os elos da cadeia — desde evitar que o produto fique no campo, contando com as tecnologias e as capacitações tecnológicas capazes de aumentar a produtividade, preservando o meio ambiente; até garantir que os produtos cheguem na mesa do consumidor; e educar a população a respeito do consumo, para que seja possível evitar tanto desperdício.

“Um terço de toda a produção agrícola está sendo desperdiçada, seja no pós-colheita, seja em toda a cadeia de alimentos. Se combatêssemos isso com efetividade, estaríamos combatendo a fome e diminuindo a pressão sobre nossas florestas e nossos recursos naturais”, avaliou Duarte.

A pesquisa em três fases

O estudo da Embrapa foi realizado em três etapas. Primeiramente, o levantamento teve uma fase qualitativa, na qual foram ouvidos 62 consumidores em supermercados, lojas de conveniência e feiras livres.

O empresário e executivo Flavio Maluf salienta que a coleta de dados dessa primeira etapa envolveu um grupo de pós-graduandos europeus das universidades de Bocconi (Itália), St Gallen (Suíça), Viena (Suíça) e Groningen (Holanda). A intenção, com isso, foi avaliar os hábitos de compra e consumo de alimentos dos brasileiros, a partir do olhar de estrangeiros.

“Os europeus ficaram impressionados com a quantidade dos alimentos adquiridos pelos brasileiros. As compras informadas como semanais, alimentariam a família por cerca de um mês. Nas lojas de conveniência, onde normalmente se adquire poucos volumes, os carrinhos utilizados eram enormes e enchiam-se com facilidade”, enfatizou o professor Carlos Eduardo Lourenço.

Já na segunda etapa da pesquisa, os pesquisadores usaram um painel com mais de 600 mil consumidores brasileiros. Entre eles, após triagem, 1.764 famílias de todas as regiões brasileiras e de diferentes classes sociais foram ouvidas. Ainda, dentro dessas famílias, 638 participaram também do preenchimento de um diário alimentar, que contou com dados sobre as quantidades desperdiçadas e, também, com fotos dos alimentos que iam fora.

Essa segunda fase apontou que, para os brasileiros, o sabor e aparência dos alimentos são mais importantes do que o consumo de alimentos saudáveis ou com poucas calorias, reporta Flavio Maluf. “Temos uma cultura de expor em excesso, de exaltar o visual. Quando entramos no supermercado é ótimo ter gôndolas cheias de alimentos bonitos e polidos, consumimos primeiro com os olhos para depois pensar na consequência desse consumo”, ponderou o presidente da Embrapa, Maurício Lopes.

Outro ponto importante ressaltado por Lopes é que quando se fala em desperdício, não se fala só de alimento. Nessa cadeia, há também o desperdício de água, energia e mão de obra — além da emissão de gases de efeito estufa.

Na terceira e última fase da pesquisa, por fim, foi realizado um levantamento de dados em blogs e redes sociais — como é o caso do Facebook e do Twitter. A ideia, nessa etapa, foi avaliar como o tema do desperdício de alimentos estava sendo propagado na internet nos últimos meses. De acordo com os resultados do levantamento da Embrapa, o assunto é abordado mais por instituições públicas e privadas do que pelos cidadãos brasileiros. Flavio Maluf destaca que as instituições chegam a abranger 75% do total das propagações relacionadas a tal tópico.

Pensar em estratégias de comunicação com o objetivo de sensibilizar e engajar o público nessa causa é necessário, pontuou Carlos Eduardo Lourenço.  “Há um esforço institucional que não reverbera nas pessoas, elas não reportam, não fazem a viralização, então a informação não se propaga (…) Nos surpreendeu como ainda não conseguimos engajar o brasileiro num assunto que é tão relevante”, disse o professor de marketing da FGV.

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